sexta-feira, 25 de março de 2016

Páscoa e a Deusa

Páscoa não é sobre homem, sacrifício,  perdão, pecados. Páscoa é sobre mulher, renovação,  renascimento,  restauração.

As origens das celebrações da pascoa remontam ao mito anglo-saxão de Eostre*, a deusa identificada com a fertilidade, renascimento, relacionada à Aurora, à luz crescente da primavera e que concede bênçãos à terra.

Eostre tinha como símbolo a lebre e o ovo que era pintado, escondido. Sua celebração coincide,  como todos os eventos mitológicos, com o ciclo da natureza,  o equinócio da primavera no hemisfério Norte.

Um tempo de renovação da natureza,  identificado com a fertilidade,  a recriação,  transformação,  o feminino que se renova,  que gera, que cria, recria que abençoa a terra que produz o sustento.

Com a ascensão das religiões patriarcais, a figura feminina de Eostre a deusa da fertilidade,  foi substituída pelas mitologias e deuses masculinos.

Sem pudor algum, usurparam os símbolos,  as datas, as referências. Porém esta última,  as referências, perderam o sentido profundo e natural que se liga ao mais íntimo de cada um,  pois, arquétipica, fala de dentro da natureza humana e primordial.

A deusa nos remete à Grande Mãe,  àquela que gera, que dá à luz, que abriga, cuida, nutre. Que se renova e, junto a isso,  nos renova com ela.

Sei que muitos vão se incomodar com isso,  mas o fato é que a mitologia nos fala, em tempos que podemos chamar de primordiais, do papel arquétipico desempenhado pela deusa (deusas) e que se perderam, foram completamente diluídos, foram artificialmente identificados com figuras masculinas de deuses na apropriação posterior feita pelas religiões patriarcais.

A Páscoa  portanto,  nos fala dessa regeneração identificada com a renovação do ciclo da natureza, (da primavera do hemisfério norte), da vida gerada, o feminino criador, restaurador, gerador da vida em suas várias formas, da deusa intimamente ligada à natureza, que dela cuida e restaura.

Vale a pena conhecer o mito de Eostre,  aliás toda a mitologia pré judaico-cristã, bem como as mitologias orientais e africanas.

Isso nos dá uma visão ampla da humanidade e seus caminhos,  o mito nos fala diretamente, é uma metáfora poderosa e riquíssima.

Lembrem que a deusa precedeu a religião patriarcal,  é interessante notar como ela teve sua posição violentamente usurpada e suplantada pelo patriarcado, mas ainda subsistem seus símbolos, suas características.

Dessa forma, é também metáfora de como foram as mulheres tratadas desde a antiguidade até os dias atuais.

Celebrem a Páscoa, mas se lembrem que estarão falando do mito original de Eostre, com os ovos,  o discurso de renovação,  de transformação,  de renascimento, da deusa, do feminino que não se pode conter, suplantar, esconder, oprimir, pois sempre fará o movimento de restaurar-se, de se renovar, renascer em seus simbolismos, sua força e sua verdade.

*Outros nomes:
Eos - Grega
Frigg - indo-européia
Astarte - Fenícia
Ishtar - Babilônica

Claudia Stella Resende

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