Páscoa não é sobre homem, sacrifício, perdão, pecados. Páscoa é sobre mulher, renovação, renascimento, restauração.
As origens das celebrações da pascoa remontam ao mito anglo-saxão de Eostre*, a deusa identificada com a fertilidade, renascimento, relacionada à Aurora, à luz crescente da primavera e que concede bênçãos à terra.
Eostre tinha como símbolo a lebre e o ovo que era pintado, escondido. Sua celebração coincide, como todos os eventos mitológicos, com o ciclo da natureza, o equinócio da primavera no hemisfério Norte.
Um tempo de renovação da natureza, identificado com a fertilidade, a recriação, transformação, o feminino que se renova, que gera, que cria, recria que abençoa a terra que produz o sustento.
Com a ascensão das religiões patriarcais, a figura feminina de Eostre a deusa da fertilidade, foi substituída pelas mitologias e deuses masculinos.
Sem pudor algum, usurparam os símbolos, as datas, as referências. Porém esta última, as referências, perderam o sentido profundo e natural que se liga ao mais íntimo de cada um, pois, arquétipica, fala de dentro da natureza humana e primordial.
A deusa nos remete à Grande Mãe, àquela que gera, que dá à luz, que abriga, cuida, nutre. Que se renova e, junto a isso, nos renova com ela.
Sei que muitos vão se incomodar com isso, mas o fato é que a mitologia nos fala, em tempos que podemos chamar de primordiais, do papel arquétipico desempenhado pela deusa (deusas) e que se perderam, foram completamente diluídos, foram artificialmente identificados com figuras masculinas de deuses na apropriação posterior feita pelas religiões patriarcais.
A Páscoa portanto, nos fala dessa regeneração identificada com a renovação do ciclo da natureza, (da primavera do hemisfério norte), da vida gerada, o feminino criador, restaurador, gerador da vida em suas várias formas, da deusa intimamente ligada à natureza, que dela cuida e restaura.
Vale a pena conhecer o mito de Eostre, aliás toda a mitologia pré judaico-cristã, bem como as mitologias orientais e africanas.
Isso nos dá uma visão ampla da humanidade e seus caminhos, o mito nos fala diretamente, é uma metáfora poderosa e riquíssima.
Lembrem que a deusa precedeu a religião patriarcal, é interessante notar como ela teve sua posição violentamente usurpada e suplantada pelo patriarcado, mas ainda subsistem seus símbolos, suas características.
Dessa forma, é também metáfora de como foram as mulheres tratadas desde a antiguidade até os dias atuais.
Celebrem a Páscoa, mas se lembrem que estarão falando do mito original de Eostre, com os ovos, o discurso de renovação, de transformação, de renascimento, da deusa, do feminino que não se pode conter, suplantar, esconder, oprimir, pois sempre fará o movimento de restaurar-se, de se renovar, renascer em seus simbolismos, sua força e sua verdade.
*Outros nomes:
Eos - Grega
Frigg - indo-européia
Astarte - Fenícia
Ishtar - Babilônica
Claudia Stella Resende
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