Redigi este texto com base no
primeiro capitulo do livro de E. H. Gombrich, A História da Arte, pois achei muito
elucidativa e prática
a forma como ele coloca a questão do que é ou não é a "Arte".
"Nada existe, realmente, a que se possa dar o nome de Arte. Existem somente os artistas."
Antigamente, alguns juntavam
um pouco de terra colorida e, numa caverna, pintavam algumas figuras de
animais. Séculos
depois, algumas pessoas vão à uma loja, compram tintas e pintam as mais variadas coisas,
ou ainda, modelam ou esculpem imagens ou formas em barro ou pedra.
"Mas Arte, com A maiúsculo não existe!"
Ela apenas parece existir. É como um bicho-papão, o monstro no armário ou debaixo da cama, algo
que passou a ser usado com o objetivo de amedrontar alguém: "o que você fez não é arte!"
Não existe nada de errado em
gostar de determinado quadro ou escultura. Mas
existem razoes erradas para não
gostar.
Nós, naturalmente, temos a tendência de gostar e admirar temas
e figuras bonitas que vemos na natureza e nos agrada a ideia de vê-las fielmente retratadas em
uma obra de arte.
Por outro lado, rejeitamos o
oposto, ou seja, o que consideramos feio, repulsivo, que se afaste do ideal de
beleza, proporção de
nossa época
e cultura.
Mas o que desconsideramos é que, os padrões de beleza variam
enormemente de cultura para cultura e mesmo em anos, séculos ou regiões. E que, a beleza de um
quadro, não
reside apenas na beleza de seu tema, mas na força expressiva e nos valores e
visão de
mundos de cada artista.
Isso também vale quando falamos de
expressão.
Guido Reni -
Cristo coroado com
espinhos, 1639-44
Cabeça de Cristo,
1175-1225
Outro fator que influi na
valorização ou
não de uma obra de arte e que não podemos ignorar é que muitas pessoas gostam e
admiram a perícia
do artista ao representar as coisas tal como ele as vê. Gostam de desenhos, pinturas
e esculturas "realistas", quase uma fotografia da cena real. E são repelidos por obras que
consideram mal desenhadas.
O que ignoram, entretanto, é que faz parte do fazer do
artista a liberdade de "distorcer" a natureza, não se prendendo a regras ou
limitações técnicas ou estilísticas, se assim não desejarem. Isso não significa, em absoluto, que
este não domine a arte do desenho
realista, como nos exemplos abaixo:
Düred - a lebre
estudo em aquarela
Dürer - Retrato de sua mãe
Rembrandt - o Elefante
Picasso - A galinha/ O galo
De acordo com Fayga Ostrower:
"...a arte não é uma mera técnica de reprodução das aparências de figuras humanas, paisagens ou objetos...A arte é uma linguagem própria, cujos termos expressivos - cores, linhas, formas - são expressivos em si, e cujos contrastes e ênfases formais também se tornam expressivos. As "distorções", por exemplo, correspondem a ênfases formais, ênfases seletivas acentuando certos aspectos no conteúdo expressivo de uma imagem" (Ostrower, Fayga. A sensibilidade do intelecto. 5º Ed. Campus Pág 3)
O que caracteriza o fazer artístico é a liberdade e a capacidade
que o artista tem em descobrir novos caminhos, vivendo como que numa constante
viagem rumo ao desconhecido, permeada de descobertas, de quebra de paradigmas,
intuindo o caminho a seguir.
Durante todo esse processo de
vivência
e criação,
ele descobre que tem o poder de traduzir sua visão de mundo e seus valores,
demostrando ser um catalisador de
diferentes mundos, onde não há regras que o possam limitar nas esferas de liberdade de
expressão e
que, é na
diversidade que reside a grandeza de sua expressão, a mais pura forma de
retratar a arte de viver e conviver.
Essa diversidade no mundo da
arte, de formas e expressões, é o reflexo de nossa própria diversidade como indivíduos. E a resistência em se encaixar em rótulos e limitações, que permeia a vida e produção artística, remete à necessidade de abandonarmos o
hábito de a tudo buscarmos o
padrão do
que cremos ser o mais aceitável e verdadeiro, a uniformização forçada de uma sociedade tão plural quanto a própria arte em suas formas de
expressão.
Por fim, fiquemos com as palavras de Gombrich, um dos grandes historiadores de arte de todos os tempos, que me inspirou a escrever esse texto:
"Não existe maior obstáculo à fruição de grandes obras de arte do que a nossa relutância em descartar hábitos e preconceitos."
Claudia
Stella Bär
Bibliografia:
Gombrich, E. H. A Historia da Arte.
16° edição. Ed. LTC
Ostrower, Fayga. A sensibilidade do
intelecto. 5º Ed. Campus





Concordo com você. Como a grande maioria, buscava achar belo somente o que assim se apresentava, um traço perfeito, uma pintura que se assemelha a uma foto, etc. Mas uma obra, as vezes até desfigurada pode transmitir algo muito mais precioso do que apenas algo bonito, pode transmitir expectativas, ansiedades, alegria, tristeza, ... Toda a forma de expressão posso considerar uma arte, quando se apresenta esta como tal.
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