domingo, 28 de abril de 2013

Arte com "A" maiúsculo


Redigi este texto com base no primeiro capitulo do livro de E. H. Gombrich, A História da Arte, pois achei muito elucidativa e prática a forma como ele coloca a questão do que é ou não é a "Arte".
"Nada existe,  realmente, a que se possa dar o nome de Arte. Existem  somente os artistas."
Antigamente, alguns juntavam um pouco de terra colorida e, numa caverna, pintavam algumas figuras de animais. Séculos depois, algumas pessoas vão à uma loja, compram tintas e pintam as mais variadas coisas, ou ainda, modelam ou esculpem imagens ou formas em barro ou pedra.
"Mas Arte, com A maiúsculo não existe!"
Ela apenas parece existir. É como um bicho-papão, o monstro no armário ou debaixo da cama, algo que passou a ser usado com o objetivo de amedrontar alguém: "o que você fez não é arte!"
Não existe nada de errado em gostar de determinado quadro ou escultura. Mas existem razoes erradas para não gostar.
Nós, naturalmente, temos a tendência de gostar e admirar temas e figuras bonitas que vemos na natureza e nos agrada a ideia de vê-las fielmente retratadas em uma obra de arte.
Por outro lado, rejeitamos o oposto, ou seja, o que consideramos feio, repulsivo, que se afaste do ideal de beleza, proporção de nossa época e cultura.
Mas o que desconsideramos é que, os padrões de beleza variam enormemente de cultura para cultura e mesmo em anos, séculos ou regiões. E que, a beleza de um quadro, não reside apenas na beleza de seu tema, mas na força expressiva e nos valores e visão de mundos de cada artista.
Isso também vale quando falamos de expressão.


Guido Reni -
Cristo coroado com
espinhos, 1639-44





 Mestre Toscano 
Cabeça de Cristo,
1175-1225


Outro fator que influi na valorização ou não de uma obra de arte e que não podemos ignorar é que muitas pessoas gostam e admiram a perícia do artista ao representar as coisas tal como ele as vê. Gostam de desenhos, pinturas e esculturas "realistas", quase uma fotografia da cena real. E são repelidos por obras que consideram mal desenhadas.
O que ignoram, entretanto, é que faz parte do fazer do artista a liberdade de "distorcer" a natureza, não se prendendo a regras ou limitações técnicas ou estilísticas, se assim não desejarem. Isso não significa, em absoluto, que este não domine a arte do desenho realista, como nos exemplos abaixo:



Düred - a lebre
estudo em aquarela










Dürer - Retrato de sua mãe












Rembrandt - o Elefante




Picasso - A galinha/ O galo

De acordo com Fayga Ostrower:
"...a arte não é uma mera técnica de reprodução das aparências de figuras humanas, paisagens ou objetos...A arte é uma linguagem própria, cujos termos expressivos - cores, linhas, formas - são expressivos em si, e cujos contrastes e ênfases formais também se tornam expressivos. As "distorções", por exemplo, correspondem a ênfases formais, ênfases seletivas acentuando certos aspectos no conteúdo expressivo de uma imagem"  (Ostrower, Fayga. A sensibilidade do intelecto. 5º Ed. Campus Pág 3)

O que caracteriza o fazer artístico é a liberdade e a capacidade que o artista tem em descobrir novos caminhos, vivendo como que numa constante viagem rumo ao desconhecido, permeada de descobertas, de quebra de paradigmas, intuindo o caminho a seguir.
Durante todo esse processo de vivência e criação, ele descobre que tem o poder de traduzir sua visão de mundo e seus valores, demostrando ser um  catalisador de diferentes mundos, onde não há regras que o possam limitar nas esferas de liberdade de expressão e que, é na diversidade que reside a grandeza de sua expressão, a mais pura forma de retratar a arte de viver e conviver.
Essa diversidade no mundo da arte, de formas e expressões, é o reflexo de nossa própria diversidade como indivíduos. E a resistência em se encaixar em rótulos e limitações, que permeia a vida e produção artística, remete à necessidade de abandonarmos o hábito de a tudo buscarmos o padrão do que cremos ser o mais aceitável e verdadeiro, a uniformização forçada de uma sociedade tão plural quanto a própria arte em suas formas de expressão.

Por fim, fiquemos com as palavras de Gombrich, um dos grandes historiadores de arte de todos os tempos, que me inspirou a escrever esse texto:
"Não existe maior obstáculo à fruição de grandes obras de arte do que a nossa relutância em descartar hábitos e preconceitos."

Claudia Stella Bär


Bibliografia:
Gombrich, E. H. A Historia da Arte. 16° edição. Ed. LTC
Ostrower, Fayga. A sensibilidade do intelecto. 5º Ed. Campus

Um comentário:

  1. Concordo com você. Como a grande maioria, buscava achar belo somente o que assim se apresentava, um traço perfeito, uma pintura que se assemelha a uma foto, etc. Mas uma obra, as vezes até desfigurada pode transmitir algo muito mais precioso do que apenas algo bonito, pode transmitir expectativas, ansiedades, alegria, tristeza, ... Toda a forma de expressão posso considerar uma arte, quando se apresenta esta como tal.

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